Dia após dia, rompem-se os nós, Quebram-se as correntes.
Ainda não sou livre. A criatividade ainda está enjaulada no proceder burocrático Nas regras que aprisionam Na organização que assassina o que há de melhor em mim
Ainda não sou livre Ainda me rondam prazos e compromissos, Tarefas e afazeres, Determinando-me objetivos, impedindo-me de agir sem fim.
Justas e merecidas férias para esquecer esse mundo racional. Para me libertar da opressão matemática.
A natureza nos demonstra, dia após dia, que viver também é uma arte do improviso E eu quero a espontaneidade sem limites definidos. Sem métrica, nem rima. Quiçá até sem linguagem.
Quero a atitude pouco profissional, que resgata diante dos meus olhos a dimensão humana de tudo que existe. Quero a paz de poder enlouquecer e fugir de todos os parâmetros. Quero ser bicho, quero perder o sentido. Quero vagar por aí.
Eu quero fazer bagunça Eu quero desorganizar o local Eu quero subverter a lógica Quebrar o maldito e enfadonho protocolo.
Quero rasgar o documento ao meio Quero partir o coração em mil Quero bagunçar o raciocínio Colocar tudo fora de lugar.
Chega de versos polidos e bem acabados Chega de carimbos e contratos Chega de negócios e burocracia Basta dessa vida fria Basta dessa vida insossa.
Eu preciso do psicodélico Eu preciso do sem sentido Necessito mais uma dose Necessito um pouco mais de risco
Cansei-me da linha reta Do discurso linear Quero voar em círculos E chegar a nenhum lugar
Basta de matemática, ciências duras, geometria. Estou farto de fórmulas de eficiência Quero desperdiçar meu tempo no que é mais inútil Quero o mau gosto O imprevisível O imperdoável O incontível e inexplicável.
Não quero viver com os pés no chão, vendo o mundo a desabar a minha volta.
Quero acabar esborrachado no chão Caído de um sonho alto, Estamapando no mundo o carimbo De um longo e largo sorriso.
Só para manter este espaço ativo, enquanto este ano incrivelmente atribulado não termina.
SOCIETY Eddie Vedder - Into The Wild
Oh, it's a mystery to me We have a greed with which we have agreed And you think you have to want more than you need Until you have it all you won't be free
Society, you're a crazy breed Hope you're not lonely without me...
When you want more than you have You think you need... And when you think more than you want Your thoughts begin to bleed I think I need to find a bigger place Because when you have more than you think You need more space
Society, you're a crazy breed Hope you're not lonely without me... Society, crazy indeed Hope you're not lonely without me...
There's those thinking, more-or-less, less is more But if less is more, how you keeping score? Means for every point you make, your level drops Kinda like you're starting from the top You can't do that...
Society, you're a crazy breed Hope you're not lonely without me... Society, crazy indeed Hope you're not lonely without me...
Society, have mercy on me Hope you're not angry if I disagree... Society, crazy indeed Hope you're not lonely without me...
CLARO “Segura o saco de pipoca pra eu pegar os ingressos?”. “Claro.” Ainda sobra um pouco de constrangimento. Aquele medo dos silêncios, das frases erradas. Afinal – depois de tantas noitadas – estamos sóbrios e a luz clara do Shopping não ajuda em nada. O Shopping não ajuda em nada. “Só tem um ingresso aqui moço”, dispara o porteiro impiedosamente. Parece saber de tudo. E não se importa. O embaraço do inábil ator que esquece a fala no diálogo principal, sua desastrada tentativa de improviso e a brutal incapacidade de fingir-se seguro perante aquilo que foge ao seu controle.... nada disso lhe importa. Tudo o que quer é cumprir sua obrigação: um ingresso por pessoa. “Segura a Coca também, vou ver no bolso.” Nada. “Segura aqui que vou ver na bolsa.” Pipoca e refrigerante pipocam de mão pra mão. Nada. Voltamos ao caixa, a fila é grande. Cortamos a fila (afinal temos direito, já pagamos!). Evito olhar para a pequena multidão enfileirada. Temo os comentários, talvez até uma possível represália coletiva. Me esforço para me controlar. Esse é o momento de mostrar segurança. O gerente é chamado. Tudo está muito claro. Opressivamente claro. O dinheiro é contado, o “sistema” conferido. Sim, de fato houve um erro. Ufa! Missão cumprida. Ingressos na mão (os dois) passamos triunfantes pelo mesmo porteiro.
ESCURO Quatro pupilas contraídas entram na sala. A escuridão é quase total. Ironicamente passo a desejar qualquer nesga de luz. Essa só vem nas raras cenas claras do trailer. Merda, seria um filme de vampiro!? Os tropeções inevitáveis. A multidão de pupilas já dilatadas nos fita. Pelo menos é o que imagino. Somos uma presa fácil. E solitária. Somos nós contra eles. E eles parecem estar em todo lugar. “Ali tem.” “Não, é só uma”. “Ali também só tem uma.” Cambaleamos por toda a sala numa inútil busca enquanto os sádicos olhares anseiam por nossa reação. Meticulosamente prepararam a platéia antes de nossa chegada. Sou posto à prova novamente. “Sentamos aqui”, escuto. “Aqui?” “É, aqui.” “Tá bom.” Ainda escolho desajeitado em qual dos degraus sentar – a pipoca ainda atrapalha – quando me dou conta que vencemos. A engenharia pragmática da via de acesso somada ao escorar de nossos ombros se revelam pra mim muito mais confortáveis do que as militares fileiras de estofados e porta copos. A Coca fica melhor no chão. De repente, me viro para olhá-los (agora consigo ver tudo). Frustrados, fingem ver o filme.